sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Concurso "Era uma vez..."

 No Mês Internacional das Bibliotecas Escolares, desafiamos os nossos alunos a escreverem um conto e a participarem no concurso "Era uma vez...". Clica na imagem para veres o regulamento.



segunda-feira, 4 de outubro de 2021

MIBE 2021: Querer é poder

Publicamos durante o mês de outubro uma recolha de contos feita no âmbito da comemoração do Mês Internacional da Biblioteca Escolar.

Querer é poder (português arcaico)

- Portugal -

 

— Quem procura sempre encontra diz um velho proverbio; quero ver por experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima é verdadeira.

Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador d'uma grande cidade.

— Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos que vivo tranquillo e solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas vezes — Quem procura sempre encontra, e quem porfia mata caça. Tomei uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.

O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.

O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma semana, sempre com a mesma vontade inabalavel, até que o rei ouviu fallar o rapaz da sua louca pretensão. Surprehendido com uma idéa tão extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:

— Que um homem distincto pela gerarchia, pela coragem, pela sciencia, pensasse em casar com uma princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes são os teus titulos? Para seres o marido de minha filha é necessario que te distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um diamante d'um valor incalculavel. Aquelle que o encontrar obterá a mão de minha filha.

O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do rio; logo de manhã começava a tirar agua com um balde pequeno, e deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e horas, punha-se a resar.

Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receiando que chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.

— Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»

— Encontrar um diamante que caiu ao rio.»

— Então, respondeu o velho rei, sou d'opinião que lh'o entreguem, porque vejo qual é a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar as últimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.»

Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha do rei.

 

                                                                                                                                     Desconhecido


MIBE 2021: Os Pecegos

 

Publicamos durante o mês de outubro uma recolha de contos feita no âmbito da comemoração do Mês Internacional da Biblioteca Escolar.

Os pecegos (português arcaico)

- Portugal -


Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos magníficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos, extasiaram-se diante das suas côres e da fina penugem que os cubria. À noite o pae perguntou-lhes:

— Então comeram os pecegos?

— Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e hei de plantal-o para nascer uma arvore.»

— Fizeste bem, respondeu o pae, é bom ser economico e pensar no futuro.»

— Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o logo, e a mamã ainda me deu metade do que lhe tocou a ella. Era doce como mel.»

— Ah! acudiu o pae, foste um pouco guloso, mas na tua edade não admira; espero que quando fores maior te has de corrigir.»

— Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou fóra, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi o meu pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for á cidade.»

O pae meneou a cabeça:

— Foi uma idéa engenhosa, mas eu preferia menos calculo.

— E tu, Eduardo, provaste o teu pecego?

— Eu, meu pae, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho, ao Jorge, que está coitadinho com febre. Elle não o queria, mas deixei-lh'o em cima da cama, e vim-me embora.

— Ora bem, perguntou o pae, qual de vós é que empregou melhor o pecego que eu lhe dei?

E os três pequenos disseram á uma:

— Foi o mano Eduardo.

Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos arrazados de lagrimas.

Desconhecido

MIBE 2021: O Pinheiro Ambicioso

 

Publicamos durante o mês de outubro uma recolha de contos feita no âmbito da comemoração do Mês Internacional da Biblioteca Escolar.

O Pinheiro ambicioso (português arcaico)

- Portugal -


Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua sorte. «Oh! dizia elle, como são horrorosas estas linhas uniformes de agulhas verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para andar vestido de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»

O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se, pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que, mais sensatos do que elle, não invejavam a sua rapida fortuna. Á noite passou por alli um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, metteu-as n'um sacco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés á cabeça.

«Oh! disse elle, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça dos homens. Fiquei completamente despido. Não ha agora em toda a floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro; o oiro attrae as ambições.

Ah! se eu arranjasse um vestuario de vidro! Era deslumbrante, e o judeu avarento não me teria despido.»

No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso, fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo cobriu-se de nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza negra as folhas de cristal.

«Enganei-me ainda, disse o joven pinheiro, vendo por terra todo feito em pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir as florestas. Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria menos brilhante, mas viveria descansado.»

Cumpriu-se o seu ultimo desejo, e, apesar de ter renunciado ás vaidades primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as todas sem deixar uma unica.

O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria voltar á sua fórma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da sua sorte.

Desconhecido

MIBE 2021: Não quero

 

Publicamos durante o mês de outubro uma recolha de contos feita no âmbito da comemoração do Mês Internacional da Biblioteca Escolar.

Não quero (português arcaico)

- Portugal -


Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito alto: «Não, dizia um com voz energica, não quero.» Parei e perguntei-lhe: — O que é que tu não queres, meu rapaz? — «Não quero dizer á mamã que venho da escola, porque é mentira. Sei que me hade ralhar, mas antes quero que me ralhe do que mentir.» — E tens razão, disse-lhe eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, emquanto que o outro pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora todo envergonhado.

D'ahi a alguns mezes, passando pela mesma aldeia e tendo de fallar com o professor, entrei na escola, onde reconheci immediatamente os meus dois pequenos; o que não quiz mentir, sorria-me, emquanto que o outro, vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os dois alumnos: Oh! disse-me elle, fallando do primeiro, é um magnifico estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre prompto a confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a reparal-as. O outro pelo contrário, é mentiroso, covarde e incorrigivel.» — Não me espanto, disse eu, já tinha tirado o horóscopo d'estas duas creanças; e contei-lhe o que tinha ouvido.

Desconhecido

MIBE 2021: L'homme blanc

 

Publicamos durante o mês de outubro uma recolha de contos feita no âmbito da comemoração do Mês Internacional da Biblioteca Escolar.

L’ Homme Blanc

- França -


Voici ce qui est arrivé à un vieux soldat qui a perdu une jambe à la guerre, et qui va demander son pain de porte en porte.

Ce vieux soldat suivait un jour le chemin de Nérac à Agen avec un seul morceau de pain dans sa besace. Arrivé près de Moncaut, il s'assit au bord d'un fossé, et il commençait à manger, quand il vit venir à lui un homme vêtu de blanc de la tête aux pieds : chapeau blanc, habits et souliers blancs, et un grand bâton blanc à la main droite.

- Que fais-tu là, mon ami?

- Vous le voyez, Monsieur; je mange un morceau de pain. Nous le partagerons si vous voulez.

- Avec plaisir, mon ami.

L'homme blanc s'assit sur le bord du fossé à côté du vieux soldat, qui lui donna la moitié de son morceau de pain. Quand ils eurent mangé, l'homme blanc se leva et dit:

- Merci, mon ami. Tu peux suivre ton chemin. Rien ne te manquera aujourd'hui, et avant que tu rentres ce soir dans ta maisonnette, tu auras ramassé du pain pour vivre pendant un mois.

Le vieux soldat se remit en chemin. De toutes les métairies on l'appelait pour lui donner, et quand il rentra le soir dans sa maisonnette, il avait ramassé du pain pour vivre pendant un mois.

Ce même jour, l'homme blanc rencontra sur le chemin un voiturier qui portait trois religieuses.

- Mes soeurs, je suis las. Donnez-moi une petite place dans votre voiture.

- Passe ton chemin, homme blanc ; il n'y a pas de place ici pour toi.

Alors le voiturier eut pitié de l'homme blanc, et lui donna une place à son côté.

- Merci, mon ami. Ta charité te sera payée.

Ils cheminèrent ainsi jusqu'à un quart d'heure de Nérac. Alors l'homme blanc descendit et dit au voiturier:

- Je t'ai dit que ta charité te serait payée. Aussi vrai que ces trois religieuses que tu vois si pleines de vie seront mortes avant d'arriver à Nérac, tu trouveras ta femme qui est malade depuis sept ans, tout à fait guérie et occupée à te faire la soupe.

L'homme blanc s'en alla. Quand le voiturier arriva à Nérac, il trouva les trois religieuses mortes mais sa femme était sur la porte et criait:

- Allons, mon homme, dépêche-toi : la soupe se refroidit.

Desconhecido

MIBE 2021: Hansel e Gretel

 

Publicamos durante o mês de outubro uma recolha de contos feita no âmbito da comemoração do Mês Internacional da Biblioteca Escolar.

Hansel und Gretel

- Alemanha -

 

Era uma vez um casal de camponeses muito pobres que tinha dois filhos: um menino, Hansel, e uma menina, Gretel.

Uma terrível seca devastara as suas colheitas e, como mal tinham alimentos para passar o inverno, decidiram abandonar os meninos na floresta.

– Talvez sozinhos tenham mais sorte… – decidiram os pais.

Nessa noite, os camponeses deitaram-se com uma imensa tristeza.

Os dois irmãos, que estavam acordados, ouviram a conversa toda.

Primeiro sentiram-se aterrorizados, mas depois Hansel teve uma boa ideia: foi lá fora e encheu os bolsos de pequenas pedras.

Na manhã seguinte levantaram-se muito cedo. Antes de saírem, a mãe deu-lhes um pedaço de pão.

Hansel foi deixando cair as pedrinhas à sua passagem. Chegados a uma clareira da floresta fizeram uma fogueira. O pai, com pesar, disse:

– Não saiam daqui. Nós temos de apanhar lenha para o inverno todo.

Hansel e Gretel aqueceram-se junto à fogueira e colheram as últimas framboesas do outono. O seu sabor recordava-lhes os doces que a mãe fazia nos dias de festa.

Ao cair a noite decidiram voltar para casa.

A Lua iluminava o caminho de pedras que lhes servia de guia.

Quando bateram à porta, os camponeses ficaram muito contentes por voltarem a ver os filhos, e deram-lhes a única coisa que tinham para comer: sopa quente.

Durante algum tempo viveram felizes, até que uma inundação acabou com o pouco que restava. Na despensa não havia mais que umas côdeas de pão.

– Se continuamos assim morremos os quatro à fome – disse a mulher. – Temos de abandoná-los de novo e esperar que tenham um futuro melhor.

Os meninos, que não conseguiam dormir por estarem famintos, voltaram a ouvir a conversa.

Hansel quis novamente ir buscar pedras, mas a porta estava fechada à chave.

– Havemos de ter alguma ideia – disse à irmã.

Na manhã seguinte os camponeses partilharam o pão e foram até à floresta.

Hansel foi deixando cair umas migalhitas para marcar o caminho.

De novo, os dois irmãos ficaram sozinhos junto à fogueira.

Ao anoitecer quiseram regressar a casa mas… os pássaros tinham comido o pão todo! Muito tristes, puseram-se a andar, sem rumo.

De súbito, o vento trouxe-lhes um cheirinho agradável…

– Cheira a doce? – perguntou a Gretel.

– Sim! Às bolachas que a mamã fazia no Natal! – recordou Gretel.

Num abrir e fechar de olhos chegaram a um lugar onde estava a coisa mais maravilhosa que eles alguma vez tinham visto: uma casa com telhado de chocolate, paredes de maçapão, janelas de rebuçado, portas de goma… Um autêntico manjar!

– Gretel, vou comer o teto! Tu, podes começar pelas janelas! – exclamou Hansel.

Estavam tão extasiados que nem repararam que alguém os estava a observar…

De repente, a voz aterradora de uma bruxa deixou-os paralisados:

– Que estão a fazer, seus pirralhos?

– É que… ti… ti… tínhamos fome e… – balbuciou Gretel.

– Eu também estou esfomeada! E como vocês comeram a minha casa, agora vou comer-vos aos dois!

Os meninos ficaram petrificados.

Hansel deu a mão à irmã e sussurrou com voz trémula:

– Havemos de ter alguma ideia…

A bruxa arrastou-os para o interior da casa murmurando:

– Este miúdo… cabe na cova de um dente! Terei de engordá-lo…

Fechou Hansel numa gaiola e obrigou Gretel a ajudá-la com as suas poções.

A casa estava cheia de estátuas estranhas que pareciam vigiar tudo o que se passava.

Gretel todos os dias levava comida ao irmão enquanto a bruxa dizia:

– Quando estiver gordinho, irei assá-lo bem assadinho. AH, AH, AH!

Hansel tranquilizava a irmã:

– Havemos de ter alguma ideia!

Gretel, que conhecia bem as propriedades das plantas, rapidamente se apercebeu de que a bruxa era pitosga e que a poção que preparava era para ver melhor. Assim, decidiu trocar os ingredientes.

– Cada dia vejo menos – protestava a bruxa.

À noite, antes de se deitar, aproximava-se da gaiola e dizia:

– Mostra-me o dedo, para ver o quanto engordaste.

Hansel mostrava-lhe sempre o mesmo osso de frango e ela rosnava:

– Mas… como é que isto pode ser? Todo o dia a comer e continuas magro como um cão!

Aquela artimanha funcionou durante várias semanas, até que um dia a bruxa acordou de mau humor e pensou:

Já estou cansada de esperar! Mesmo que ele não tenha muita carne, os ossos darão para uma bela sopa…

Impaciente, ordenou a Gretel:

– Prepara o forno!

– Estou a mexer a poção – respondeu a menina. – Quer que a deixe assim?

A bruxa pensou que a poção também era importante e aproximou-se do fogão para preparar as brasas.

Como não via bem, meteu a cabeça dentro do forno.

Então Gretel empurrou-a com todas as suas forças e… zás!, fechou a porta.

A malvada da bruxa começou a arder e transformou-se numa nuvem de fumo que invadiu a floresta.

Para libertar o irmão, Gretel puxou-o com tanta força que Hansel saiu disparado da gaiola e partiu uma das estátuas que decoravam a sala.

Ao aproximar-se viu que no seu interior havia… pedras preciosas!

Gretel partiu outra: tinha moedas de ouro!

E mais outra: estava repleta de brilhantes!

Depois de carregarem o tesouro na carruagem da bruxa, Gretel levou consigo o livro de receitas de poções, e Hansel várias telhas de chocolate. Com o estômago cheio seria mais fácil encontrar o caminho de regresso.

Ao cair a noite chegaram a casa.

Os pais, reconheceram logo as vozes deles e, emocionados, saíram à rua para os receber:

– Ai, que saudades vossas!

Os meninos contaram-lhes tudo o que tinha acontecido e mostraram-lhes o tesouro da bruxa.

A partir daquele dia, nunca mais ninguém voltou a passar fome naquela região.

E desde então, todas as noites, sentavam-se os quatro em redor da lareira para partilharem uma bela chávena de chocolate quente.

                                                                                       Recolhido pelos irmãos Grimm