quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Fala-me de Livros de Natal - vídeo resumo

Fala-me de Livros com Catarina Oliveira

Apresentação dos livros Um lobo nunca abandona a sua alcateia e Heróis entre estrelas.





Fala-me de Livros com Sérgio Carvalho

Apresentação do livro "A Vingança dos Sentidos" de Sérgio Carvalho, professor do nosso
agrupamento.
10 de dezembro 2019



No meu peito não cabem pássaros: interpretação e intertextualidade

No meu peito não cabem pássaros, Nuno Camarneiro
Interpretação da obra e intertextualidade


Neste livro interessou-nos particularmente a história de Fernando, personagem que, após a travessia pelo Atlântico, chegara à cidade antiga da sua vida e à casa da tia, onde iria morar.

Fernando reconhece a cidade nos seus passos - “Habituou-se a medir as distâncias em passos para que o corpo as possa entender.” (CAMARNEIRO, 2011, p. 25), espreita e configura mentalmente a sua geografia, e procura entender a cidade que lhe será anfitriã.

Fernando é cercado do afeto e apego das tias, no entanto precisa também de se adaptar aos cheiros e austeridade da casa e à vida que se configurava nas ruas da cidade.

Após a sua chegada, agoniado por uma febre, Fernando recebe todo o tipo de tratamentos, no entanto dá-se conta que a sua febre está escondida no seu espírito, em desejos colados ao corpo, numa insatisfação ou incompletude que o transforma dia-a-dia, numa inquietude que representa a sua inabilidade em adaptar-se a nova vida.

Ele escrevia de maneira febril, quase obsessivamente sobre tudo, sobre o mundo que o cercava, sobre as pessoas, as coisas e sobre si mesmo. “No meu peito não cabem pássaros” (CAMARNEIRO, 2011, p. 36) é a descrição do sentimento, da sensação que Fernando tem na sua crise de febre, um incómodo constante, inquietante. Uma febre que, segundo o narrador não pode ser curada, mas tem de ser vivida, ao ponto que o deixa doido e lhe muda o rumo.

Fernando cura-se da febre, os pássaros do peito virariam os heterónimos, o corpo escreveria o que Lisboa lhe causara na alma, e a alma sopraria ao corpo o que dele pretendia: “Não há proteções eficazes contra as emoções cantadas e há quem fuja, quem enlouqueça e quem escreva poemas. Em Lisboa, entre as oito da manhã e as oito da noite, as cabeças enchem-se de eco e cada um faz o que sabe fazer.” (CAMARNEIRO, 2011, p. 46).

O Fernando Pessoa elaborado por Nuno Camarneiro é uma personagem a iniciar um percurso. O surgimento da vontade de escrita do jovem Fernando é o começo de todo um processo de multiplicidade e construção poética. Processo este que não só delimita a sua indiferença ao mundo externo, como também mantem a ideia da poesia como o esvaziamento do próprio espírito das diversas vozes que nele habitam.

As palavras passam a preencher-lhe o tempo e a preocupação, levam ao içar da sua multiplicidade inerente e à consequente criação dos heterónimos: “Todos deveríamos ter diferentes palavras para “eu”: o eu que eu sinto, o eu que tu vês, o eu que eu não sou.” (CAMARNEIRO, 2011, p. 50).

Mais tarde, Fernando precisa desenvencilhar-se dos móveis antigos da casa da tia, dos cheiros e da antiguidade do sangue para talvez na solidão se encontrar perdido no meio de tantos eus. Descobrindo-se assim uma personagem inconformada com o mundo mas também com as pessoas.

Ao pensarmos em Fernando Pessoa baseando-nos na sua biografia e no seu pertencimento histórico a um determinado local, absorver e transformar em personagem a sua aura de isolamento, a sua solidão e ao mesmo tempo toda a genialidade que o constituiu nunca será uma configuração exata da complexidade que realmente foi.

Tal como o próprio Fernando Pessoa em Textos Filosóficos diz: “Personalidade supõe complexidade” (1906).

Contudo, no livro “No meu peito já não cabem pássaros”, Fernando Pessoa é construído da melhor forma a partir da sua mais evidenciada peculiaridade da vida - a distinção.

Concluindo, numa narrativa onde a ficcionalidade aponta para a maneira como Fernando Pessoa compreendia o mundo em que viveu, a ficção de Camarneiro torna-se escrita de Pessoa; é uma flexão entre o real e o imaginário, numa construção efetiva e pluridimensional da figura ficcional que o poeta foi na sua própria existência, numa desconstrução e conseguinte reorganização da personalidade sempre enigmática de Pessoa.

12º D - Escola Secundária de Santa Maria Maior - 2019

Fala-me de Livros com Nuno Camarneiro

Encontro com Nuno Camarneiro
11 de dezembro de 2019
Fala-me de Livros / Feira do Livro de Natal












Imagens da Leitura: No meu peito não cabem pássaros

Ilustrações a partir da obra "No meu peito não cabem pássaros" de Nuno Camarneiro. Pelos alunos do 12º E - Artes Visuais, no âmbito do projeto Ler para Ser Maior (aLer+).



























terça-feira, 26 de novembro de 2019

Nuno Camarneiro na nossa escola

No dia 11 de dezembro o escritor Nuno Camarneiro estará à conversa com os seus leitores da Maior!
Os seus livros já estão à venda na nossa biblioteca.



Que linhas unem um imigrante que lava vidros num dos primeiros arranha-céus de Nova Iorque a um rapaz misantropo que chega a Lisboa num navio e a uma criança que inventa coisas que depois acontecem? Muitas. Entre elas, as linhas que atravessam os livros. Em 1910, a passagem de dois cometas pela Terra semeou uma onda de pânico. Em todo o mundo, pessoas enlouqueceram, suicidaram-se, crucificaram-se, ou simplesmente aguardaram, caladas e vencidas, aquilo que acreditavam ser o fim do mundo.
Nos dias em que o céu pegou fogo, estavam vivos os protagonistas deste romance - três homens demasiado sensíveis e inteligentes para poderem viver uma vida normal, com mais dentro de si do que podiam carregar.
Apesar de separados por milhares de quilómetros, as suas vidas revelam curiosas afinidades e estão marcadas, de forma decisiva, pelo ambiente em que cresceram e pelos lugares, nem sempre reais, onde se fizeram homens. Mas, enquanto os seus contemporâneos se deixaram atravessar pela visão trágica dos cometas, estes foram tocados pelo génio e condenados, por isso, a transformar o mundo.
Cem anos depois, ainda não esquecemos nenhum deles.
Escrito numa linguagem bela e poderosa, que é a melhor homenagem que se pode fazer à literatura, No Meu Peito não Cabem Pássaros é um romance de estreia invulgar e fulgurante sobre as circunstâncias, quase sempre dramáticas, que influenciam o nascimento de um autor e a construção das suas personagens.



O escritor Nuno Camarneiro decide viajar até uma zona de guerra no Médio-Oriente para melhor entender as razões do conflito e de quem nele participa, juntando-se a um jornalista turco. Mas o que começa por ser uma visita de estudo transforma-se rapidamente num pesadelo, quando ambos são sequestrados por um grupo de fundamentalistas islâmicos e encerrados num barracão que partilham com outras vítimas: uma freira ortodoxa, um engenheiro holandês, um soldado americano e um francês misterioso e suicida.
Ao longo de várias semanas, terão de encontrar estratégias de sobrevivência para não enlouquecerem nem perderem a esperança: contam histórias, revisitam memórias, inventam jogos e vidas inteiras, tornam-se guerrilheiros da ficção.
Numa guerra entre homens, ideias, deuses e civilizações, não há partes neutras, e é difícil distinguir as vítimas dos agressores. A verdade escreve-se em muitas línguas, como as histórias, os romances e os sonhos de cada um.




«Um hotel é um mundo pequeno feito à imagem do outro maior. Nós garantimos que a escala permaneça justa, sem nada aumentar ou reduzir. Não nos peçam para corrigir o que vai torto ou torcer o que anda certo. Servimos os nossos hóspedes e damos-lhes a importância que merecem, ou que podem pagar. O resto pertence à justiça ou à igreja, não somos juízes nem padres. Somos artífices do detalhe e da memória, e não nos peçam mais.»
Num grande hotel, as paredes têm ouvidos e os espelhos já viram muitos rostos ao longo dos anos: homens e mulheres de passagem, buscando ou fugindo de alguma coisa, que procuram um sentido para os dias. Num quarto pode começar uma história de amor ou terminar um casamento, pode inventar-se uma utopia ou lembrar-se a perna perdida numa guerra, pode investigar-se um caso de adultério ou cometer-se um crime de sangue.
Em três épocas diferentes, entre guerras que passaram e outras que hão-de vir, as personagens de Se Eu Fosse Chão - diplomatas, políticos, viúvos, recém-casados, crianças, actores, prostitutas, assassinos e até alguns fantasmas - contam histórias a quem as queira escutar.


Num prédio encostado à praia, homens, mulheres e crianças - vizinhos que se cruzam mas se desconhecem - andam à procura do que lhes falta: um pouco de paz, de música, de calor, de um deus que lhes sirva. Todas as janelas estão viradas para dentro e até o vento parece soprar em quem lá vive. Há uma viúva sozinha com um gato, um homem que se esconde a inventar futuros, o bebé que testa os pais desavindos, o reformado que constrói loucuras na cave, uma família quase quase normal, um padre com uma doença de fé, o apartamento vazio cheio dos que o deixaram. O elevador sobe cansado, a menina chora e os canos estrebucham. É esse o som dos dias, porque não há maneira de o medo se fazer ouvir.
A semana em que decorre esta história é bruscamente interrompida por uma tempestade que deixa o prédio sem luz e suspende as vidas das personagens - como uma bolha no tempo que permite pensar, rever o passado, perdoar, reagir, ser também mais vizinho. Entre o fim de um ano e o começo de outro, tudo pode realmente acontecer - e, pelo meio, nasce Cristo e salva-se um homem.
Embora numa cidade de província, e à beira-mar, este prédio fica mesmo ao virar da esquina, talvez o habitemos e não o saibamos.
Com imagens de extraordinário fulgor a que o autor nos habituou com o seu primeiro romance, Debaixo de Algum Céu retrata de forma límpida e comovente o purgatório que é a vida dos homens e a busca que cada um empreende pela redenção.



A Rita é uma menina que não pára quieta e está na idade dos porquês: quer saber onde é que mora o papão, onde dormem os pardais e para onde vão os sonhos quando as pessoas acordam. Os pais, já cansados de um dia inteiro de trabalho, respondem que o papão mora no sótão, que é também onde dormem os pardais e os sonhos vão depois de as pessoas acordarem. E não é que a Rita vai ao sótão, trava conhecimento com o Papão - que, afinal, é um medricas -, vê as festas que os pardais fazem todas as noites e encontra caixas e caixas com sonhos guardados? Agora são os pais que não querem acreditar.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

O que se come na nossa literatura

O que se come na nossa literatura?
No mês em que se comemora o Dia da Mundial da Alimentação, a equipa da biblioteca fez uma recolha de excertos de obras da Literatura Portuguesa.



Deste enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do “jantarinho de suas incelências”. Era noutra sala, mais nua, mais abandonada: - e aí logo à porta o meu supercivilizado Príncipe estacou, estarrecido pelo desconforto, e escassez e rudeza das coisas. (...)
Jacinto ocupou a sede ancestral – e durante momentos (de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fosca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou – e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: - “Está bom!”
Estava precioso: tinha fígado e tinha moela; o seu perfume enternecia; três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.
-Também lá volto! – exclamava Jacinto com uma convicção imensa. – É que estou com uma fome... Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.
Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado – e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominava favas!... Tentou todavia uma garfada tímida – e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:
-Óptimo!... Ah, destas favas, sim! Ó que fava! Que delícia! (...)
- Pois é cá a comidinha dos moços da Quinta! E cada pratada, que até suas Incelências se riam... Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto, também vai engordar e enrijar!

Eça de Queiroz, in A Cidade e as Serras




DE TARDE

Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.

Cesário Verde, De tarde


NUM BAIRRO MODERNO
[…]
Subitamente - que visão de artista! -
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!

Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma ou outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, aos bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injetados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos - ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas - os rosários de olhos.

Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como alguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O Sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me, prazenteira:
"Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!..."
[…]
Cesário Verde, Num bairro moderno


 Ega declarou muito decididamente ao Sr. Sousa Neto que era pela escravatura. Os desconfortos da vida, segundo ele, tinham começado com a libertação dos negros. Só podia ser seriamente obedecido, quem era seriamente temido … Por isso ninguém agora lograva ter os seus sapatos bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde que não tinha criados pretos em quem fosse lícito dar vergastadas … Só houvera duas civilizações em que o homem conseguira viver com razoável comodidade: a civilização romana e a civilização especial dos plantadores da Nova Orleães. Porquê? Porque numa e noutra existira a escravatura absoluta, a sério, com o direito de morte! …
Durante um momento o Sr. Sousa Neto ficou como desorganizado. Depois passou o guardanapo sobre os beiços, preparou-se, encarou o Ega.
- Então Vossa Excelência, nessa idade, com a sua inteligência, não acredita no progresso?
- Eu não, senhor.
O conde interveio, afável e risonho:
- O nosso Ega quer fazer simplesmente um paradoxo. E tem razão, tem realmente razão, porque os faz brilhantes …
Estava-se servindo jambon aux épinards. Durante um momento falou-se de paradoxos. Segundo o conde, quem os fazia também brilhantes e difíceis de sustentar, excessivamente difíceis, era o Barros, o ministro do Reino …

Eça de Queirós, in Os Maias (Capítulo XII)


               Todos cortesmente admiraram a finura do Cohen. Ele agradecia, com o olho enternecido, passando pelas suíças a mão onde reluzia um diamante. E nesse momento os criados serviam um prato de ervilhas num molho branco, murmurando:
                - Petits pois à la Cohen.
                À la Cohen? Cada um verificou o seu menu mais atentamente. E lá estava, era o legume: Petits pois à la Cohen. Dâmaso, entusiasmado, declarou isto «chique a valer». E fez-se, com o champanhe que se abria, a primeira saúde ao Cohen.

Eça de Queirós, in Os Maias (Capítulo VI)



Quando Blimunda acorda, estende a mão para o saquitel onde costuma guardar o pão, pendurado à cabeceira, e acha apenas o lugar. Tacteia o chão, a enxerga, mete a mão por baixo da travesseira, e então ouve Baltasar dizer, Não procures mais, não encontrarás, e ela, cobrindo os olhos com os punhos cerrados, implora, Dá-me o pão, Baltasar, dá-me o pão, por alma de quem lá tenhas, Primeiro me terás de dizer que segredos são estes, Não posso, gritou ela, e bruscamente tentou rolar para fora da enxerga, mas Sete-Sóis deitou-lhe o braço são, prendeu-a pela cintura, ela debateu-se brava, depois passou-lhe a perna direita por cima, e, assim libertada a mão, quis afastar-lhe os punhos dos olhos, mas ela tornou a gritar, espavorida, Não me faças isso, e foi o grito tal que Baltasar a largou, assustado, quase arrependido da violência, Eu não te quero fazer mal, só queria saber que mistérios são, Dá-me o pão, e eu digo-te tudo, Juras, Para que serviriam juras se não bastassem o sim e o não, Aí tens, come, e Baltasar tirou o taleigo de dentro do alforge que lhe servia de travesseira.
Cobrindo o rosto com o antebraço, Blimunda comeu enfim o pão. Mastigava devagar. Quando terminou, deu um grande suspiro e abriu os olhos. A luz cinzenta do quarto amanheceu de azul para aqueles lados, assim pensaria Baltasar se tivesse aprendido a pensar coisas destas, mas melhor que pensar finezas que poderiam servir nas antecâmaras da corte ou nos palratórios das freiras, foi sentir o calor do seu próprio sangue quando Blimunda se virou para ele, os olhos agora escuros, e de repente uma luz verde passando, que importavam agora os segredos, melhor seria tornar a aprender o que já sabia, o corpo de Blimunda, ficará para outra ocasião, porque esta mulher, tendo prometido, vai cumprir, e diz, Lembras-te da primeira vez que dormiste comigo, teres dito que te olhei por dentro, Lembro-me, Não sabias o que estavas a dizer, nem soubeste o que estavas a ouvir quando eu te disse que nunca te olharia por dentro. Baltasar não teve tempo de responder, ainda procurava o sentido das palavras, e outras já se ouviam no quarto, incríveis, Eu posso olhar por dentro das pessoas. 

José Saramago, in Memorial do Convento (Capítulo VIII)


 Na cidade não havia trigo para vender e, se o havia, era mui pouco e tão caro que as pobres gentes não podiam chegar a ele [...]. E começaram de comer pão de bagaço de azeitona, e dos queijos das malvas e das raízes de ervas e de outras desacostumadas coisas, pouco amigas da natureza; e tais havia que se mantinham em alféloa [melaço].
No lugar onde costumavam vender o trigo, andavam homens e moços esgaravatando a terra; e, se achavam alguns grãos de trigo, metiam-nos na boca, sem tendo outro mantimento; outros se fartavam de ervas e bebiam tanta água que achavam mortos homens e cachopos jazer inchados nas praças e em outros lugares.
Das carnes, isso também, havia em ela grande míngua; e se alguns criavam porcos, mantinham-se em eles; e pequena posta de porco valia cinco e seis libras, que era uma obra castelã; e a galinha quarenta soldos; e a dúzia dos ovos, doze soldos; [...].
Assim que os pobres, por míngua de dinheiro, não comiam carne e padeciam mal. E começaram de comer as carnes das bestas, e não somente os pobres e minguados, mas grandes pessoas da cidade, lazerando [enfraquecendo], não sabiam que fazer; e os gestos [rostos] mudados com fome bem mostravam seus encobertos padecimentos.
Andavam os moços de três e oitenta anos pedindo pão pela cidade, por amor de Deus, como lhes ensinavam suas madres [mães]; e muitos não tinham outra coisa que lhes dar senão lágrimas que com eles choravam, que era triste coisa de ver; e, se lhes davam tamanho pão como uma noz, haviam-no por grande bem.
Desfalecia o leite àquelas que tinham crianças a seus peitos, por míngua de mantimentos; e, vendo lazerar [sofrer] seus filhos, a que acorrer não podiam, choravam amiúde [frequentemente] sobre eles a morte, antes que os a morte privasse da vida [...].

Fernão Lopes, in Crónica de D. João I (Capítulo CXLVIII)

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Livros QR: Contos de Guerra

Apreciação crítica produzida no âmbito do projeto aLer+ - Ler para Ser Maior
Livros QR




Gostei muito de ler o livro “Contos de Guerra", mas acho que o conteúdo que o livro possui não se adapta muito ao título uma vez que os contos falam mais sobre vidas pessoais do que sobre guerra propriamente.
Por exemplo o conto “A corte de Dinah Shad” fala sobre a paixão de Mulvaney pela Dinah Shadd. Pelo título esperava um conteúdo mais relacionado com a guerra, por esse motivo é que não apreciei muito a obra.
João Antunes, 10º C

Livros QR: Contos Crime

Apreciação crítica produzida no âmbito do projeto aLer+ - Ler para Ser Maior
Livros QR

O livro tem três contos que abordam a criminalidade: o homicídio e o assassinato em massa.

Em “ Ninguém mais se perderá por Luba “ desenvolve-se a história de Luba, uma mulher bela que foi assassinada pelo amante. No conto “ O Homem Superior “ fala-se de Jeff Peters, um homem que sabia como enganar as pessoas de forma a o seu negócio dar lucro de 200%. Também fala de Bill Basset, um ladrão que roubava o que queria e que seria enganado pelo seu parceiro.

Já “O Bom Homem é Difícil de Encontrar“ centra-se na viagem de férias da avó, do filho, da cunhada e dos netos, em que o desvio feito pela avó leva o carro a capotar e ao posterior assassinato da família.

É um bom livro de contos para passar o tempo, pequenos contos para ler enquanto viajamos de comboio ou autocarro, por exemplo.


Xavier Morais, 10º C

Livros QR: Uma dor tão desigual

Apreciação crítica produzida no âmbito do projeto aLer+ - Ler para Ser Maior
Livros QR

O livro “Uma dor tão desigual” reúne oito contos inéditos de alguns dos mais conceituados autores portugueses. Cada conto tem como tema principal um distúrbio mental, isto é, trata de temas no âmbito da saúde psicológica.
O conto “Da impossibilidade de ser livre” foi escrito por Patrícia Reis e conta a história de uma senhora, da qual não sabemos o nome, que vai a quatro consultas de psicologia uma vez por mês. A referida personagem conta a sua vida pessoal à doutora. Esta senhora vive com o marido e os seus dois filhos. A sua vida é considerada normal, até que uma manhã o seu marido chega a cozinha e diz-lhe «Não aguento mais. Não me consigo organizar contigo, connosco, o casamento acabou. Lamento. Vou sair agora. Hoje.». Após esta súbita e inesperada saída, a senhora vive três meses difíceis. Na quarta e uma última consulta, a personagem principal informa a doutora que aquela seria (provavelmente) a última consulta, pois o marido tinha regressado a casa e tudo tinha voltado ao normal.

Sofia Basto, 10º C

Livros QR: Contos do efémero

Apreciação crítica produzida no âmbito do projeto aLer+ - Ler para Ser Maior
Livros QR


Para mim os livros de contos são livros que se vão lendo. Neste caso, e apesar de não ser tarefa fácil, pois estamos a falar de micro-contos, muitas vezes constituídos por um único parágrafo, mantive esta regra.
De uma maneira geral, estes 30 contos, apesar de efémeros, são deliciosos, devem ser lidos e relidos, surpreendem e são inesquecíveis. Os meus preferidos dão pelo nome de “O Escritor”, “Words, Words, Words”, “Anarquia”, “O Editor” e “Bibliofilia”.
Em conclusão, este é um livro com o qual vale a pena perder um pouco de tempo, pois é muito interessante e divertido.

Simão Luís, 10º C

Livros QR: As mais belas histórias

Apreciação crítica produzida no âmbito do projeto aLer+ - Ler para Ser Maior
Livros QR


Li recentemente um livro de Hermann Hesse - “As mais belas histórias” - que me marcou pela positiva e pela negativa.
Ao longo dos contos do livro, o leitor irá deparar-se com experiências pessoais. Contudo, os acontecimentos mais complicados são contados de uma forma muito simples, levando a pouca ação e consequentemente a provável desinteresse por parte do leitor.
Porém, apreciei este livro, sobretudo por duas razões: em primeiro lugar, porque o escritor Hermann Hesse utiliza adjetivos que nos envolvem como se estivéssemos dentro da história; em segundo lugar, pelo facto de ser uma leitura fácil e de compreensão acessível.
Por todos os motivos apresentados, eu recomendo este livro.

Mariana Cunha 10º C 

Livros QR: Contos de Mistério

Apreciação crítica produzida no âmbito do projeto aLer+ - Ler para Ser Maior
Livros QR



Relativamente a este conto, o que eu posso dizer é que é de boa leitura, pois faz uma pessoa perder-se com tudo o que está à sua volta e focar-se em descobrir o mistério. Uma das coisas que impulsiona muito esta minha opinião é o facto de o autor narrar a história na primeira pessoa, o que faz com que o leitor viva mais os acontecimentos. Da história fica a astúcia do detetive Dupin e os seus métodos utilizados para solucionar os casos. Depois da leitura deste conto, com tanta emoção, o leitor fica com mais curiosidade e cada vez mais envolvido nos restantes contos do autor.

Beatriz Silva, 10º C


quinta-feira, 13 de junho de 2019

Livros QR: Retalhos da vida de um médico

Apreciação crítica produzida no âmbito do projeto aLer+ - Ler para Ser Maior
Livros QR


“Um autor exemplo da fusão, sempre almejada, da literatura e da vida.”.
Fernando Namora retrata numa realidade de eufemismos a vida de um médico. Contratempos, histórias de vida e avarezas são as três características desta vida apaixonada (medicina) que o autor toca.
Narrativas como “A voz do sangue” e “O homem que queria morrer”, são dois dos retalhos com mais impacto nesta obra. A primeira reflete a realidade de uma noite vermelha, naquela que aparentava ser uma noite muito tranquila na vida de um médico, que é chamado para fazer o que mais ninguém consegue fazer. A segunda conta a história de um homem depressivo, que estava gravemente doente e queria desesperadamente acabar com a vida.
Dois contos de grande emoção e ânsia que fazem não querer parar de ler e mudar o nosso ponto de vista sobre a vida de um médico, fazendo perceber que ser médico não é a capacidade de entrar na faculdade e ser moldado - um médico é aquele que depois de levar com esse molde se consegue desenformar, corrigindo-o e entregar-se de corpo e alma a esta missão de curar e salvar pessoas.

Catarina Teixeira, 10º C


segunda-feira, 3 de junho de 2019

O rapaz do pijama às riscas

Apreciação crítica produzida no âmbito do projeto aLer+ - Ler para Ser Maior
Livros QR


Li recentemente um livro de John Boyne, “O Rapaz Do Pijama Às Riscas”, que me marcou intensamente.
A tipologia desta obra é um Romance Jovem. Consiste numa ficção histórica que decorreu em plena Segunda Guerra Mundial. Os protagonistas são Bruno, filho de um comandante nazi, e Shmuel, um menino judeu que fora preso num campo de concentração. Ao longo da leitura, compreendemos que eles são completamente puros, relatando assim um conto de inocência num mundo de ignorância e egoísmo.
Admirei incondicionalmente a empatia e a ingenuidade que prevaleceu neles, mesmo encontrando-se num tempo desastroso de guerras e preconceitos. “(…) a vedação não está ali para nos impedir de passar para aquele lado. É para os impedir a eles de passarem para este. Bruno pôs-se a pensar naquilo, mas continuava a não perceber.” Para além disso, apesar de terem estatutos sociais diferentes, partilharam a mesma amizade. Emocionei-me, profundamente, devido a este livro me lembrar alguns dos acontecimentos terríveis que ocorreram naquele período histórico. Sobretudo, a forma como os judeus foram tratados e que visava o seu extermínio.
Sempre gostei das obras literárias com este tipo de conteúdo, porém esta foi a que mais me sensibilizou e comoveu.
Inês Cássia Amorim, 10ºG


domingo, 2 de junho de 2019

A garra do macaco

Apreciação crítica produzida no âmbito do projeto aLer+ - Ler para Ser Maior
Livros QR


“A garra do macaco”, escrito por Willian Wymark Jacobs em 1902, é um conto fantástico que li num pequeno livro, junto com mais dois outros contos.
Esta história apresenta-nos uma garra de macaco capaz de concretizar três desejos a quem a possuir, mas com consequências duras e desagradáveis. Uma família recebe o amuleto, não muito convencida de que a fantasia vá funcionar e, embora alertados de que os desejos poderiam ter consequências péssimas, decidem arriscar e pedir duas mil libras para pagar a casa. No dia seguinte, o desejo concretiza-se, mas a consequência acaba por lhes provocar um impacto maior do que pensavam.
 Apreciei bastante a leitura rápida e cativante deste conto que recomendo a qualquer pessoa que preze histórias fantásticas.

Sihan Vitorino,10º G

Filhos brilhantes, alunos fascinantes

Apreciação crítica produzida no âmbito do projeto aLer+ - Ler para Ser Maior
Livros QR

Li recentemente um livro de Augusto Cury que me marcou profundamente.
“Filhos brilhantes, alunos fascinantes não são aqueles que são sempre bem comportados, que não falham, que nunca choram ou tropeçam. Mas sim aqueles que aprendem a desenvolver consciência crítica, a decidir o caminho que devem percorrer, a trabalhar os seus erros, a construir a tolerância, a reconhecer os seus conflitos”.
Augusto Cury fala de um professor chamado Romanov, franzino, 1,55m de altura, que é contratado pela “escola dos pesadelos” para tentar mudar a estrutura daquela escola. Romanov tivera uma vida muito difícil e tinha visto a morte de perto. Passou então a fazer da sala de aula um campo de batalhas, no qual os alunos aprendiam a lutar pelos seus direitos.
Através da arte da pergunta e da música, Romanov começou a abrir a mente dos alunos. Tinha como objetivo estimular a sua inteligência e raciocínio através de conversas, histórias reais, às vezes até as dos próprios alunos… E, assim, os alunos começaram a entender que a vida é um livro, mas que pouco ensina a quem não sabe ler.
Além dos alunos, ele também conseguiu influenciar os outros professores e, lentamente, a “escola dos pesadelos” foi transformada na escola dos sonhos.
Este livro ensina muito sobre a vida, por isso aconselho a sua leitura a todos, pois como diz o autor: “Eu escrevi o livro para jovens dos nove aos noventa anos”.

Mariana Baganha

Fronteiras perdidas: contos para viajar

Apreciação crítica produzida no âmbito do projeto aLer+ - Ler para Ser Maior
Livros QR

Na obra “Fronteiras Perdidas”, de José Eduardo Agualusa, encontramos pequenos episódios, escritos numa linguagem cuidada, sempre com uma presença da terra africana na sua escrita.
O livro está organizado em dois conjuntos: o primeiro, “Fronteiras perdidas”, onde um homem, que faz as suas viagens por vários países e continentes, vive acontecimentos e relata-os. O segundo conjunto, “Outras fronteiras”, já são episódios diferentes, escritos com maior recurso à imaginação e não segundo o conceito de um sítio real e ideal. O que une estas dezasseis narrativas, talvez seja a procura constante de um lugar para viajar ou talvez morar, em que as noções de fronteira vão além do reconhecível.
A escrita de Agualusa, como já afirmei em cima, tem uma linguagem simples mas cuidada. Na minha opinião consegue ser profundamente poética e por vezes triste, mas ao mesmo tempo de uma profunda beleza e perfeição.
Estes episódios transmitem cenários africanos, com bastante encanto.
Para finalizar, aconselho a ler este livro de José Eduardo Agualusa, pois tem uma escrita fantástica.

Inês Fernandes, 10ºG