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sábado, 18 de junho de 2011

José Saramago, 1922-2010






As Intermitências da Morte
No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar. A passagem do ano não tinha deixado atrás de si o habitual e calamitoso regueiro de óbitos, como se a velha átropos da dentuça arreganhada tivesse resolvido embainhar a tesoura por um dia. Sangue, porém, houve-o, e não pouco. Desvairados, confusos, aflitos, dominando a custo as náuseas, os bombeiros extraíam da amálgama dos destroços míseros corpos humanos que, de acordo com a lógica matemática das colisões, deveriam estar mortos e bem mortos, mas que, apesar da gravidade dos ferimentos e dos traumatismos sofridos, se mantinham vivos e assim eram transportados aos hospitais, ao som das dilacerantes sereias das ambulâncias. Nenhuma dessas pessoas morreria no caminho e todas iriam desmentir os mais pessimistas prognósticos médicos, Esse pobre diabo não tem remédio possível, nem valia a pena perder tempo a operá-lo, dizia o cirurgião à enfermeira enquanto esta lhe ajustava a máscara à cara. Realmente, talvez não houvesse salvação para o coitado no dia anterior, mas o que estava claro é que a vítima se recusava a morrer neste. E o que acontecia aqui, acontecia em todo o país. Até à meia-noite em ponto do último dia do ano ainda houve gente que aceitou morrer no mais fiel acatamento às regras, quer as que se reportavam ao fundo da questão, isto é, acabar-se a vida, quer as que atinham às múltiplas modalidades de que ele, o referido fundo da questão, com maior ou menor pompa e solenidade, usa revestir-se quando chega o momento fatal. Um caso sobre todos interessante, obviamente por se tratar de quem se tratava, foi o da idosíssima e veneranda rainha-mãe.


Para ouvir

Excertos da obra Intermitências da Morte, de José Saramago, ditos por Luís Gaspar.


quinta-feira, 9 de junho de 2011

Aluno da MAIOR recebe prémio Couto Viana

Decorreu ontem, na sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, a cerimónia de entrega de prémios do concurso “Prémio Escolar António Manuel Couto Viana”.

O aluno André Cunha, do 11º G, foi o vencedor da categoria Melhor Ilustração, pela ilustração do poema “No circo dos meninos infelizes”.


Na cerimónia estiveram também presentes os alunos Tiago Cunha, do 11º B, e José Hugo Cruchinho, do 11º I, que participaram nas modalidades de conto e poesia, respectivamente. A todos os alunos participantes foi oferecido um exemplar do livro “Tens visto o Antão? Contos Pícaros e outros não” de Couto Viana.

O prémio António Manuel Couto Viana foi criado pela Câmara Municipal de Viana do Castelo com o objectivo de dar a conhecer a obra literária do autor e de premiar produções literárias e artísticas da população estudantil da comunidade escolar vianense, sob as modalidades de poesia, conto, ensaio e ilustração.

Terminada a entrega de prémios, foi inaugurada uma exposição de homenagem ao escritor.



Outras ilustrações a concurso na fase escolar.





quinta-feira, 28 de abril de 2011

Leituras para SABOREAR

Queres SABOREAR a leitura de Saramago?

"O telefone tocou, era o ministro do interior, Senhor primeiro-ministro, estou a receber chamadas de todos os jornais, disse, exigem que lhes sejam fornecidas cópias da carta que acaba de ser lida na televisão em nome da morte e que eu deploravelmente desconhecia, Não o deplore, se entendi assumir a responsabilidade de guardar segredo foi para que não tivéssemos de aguentar doze horas de pânico e de confusão, Que faço, então, Não se preocupe com este assunto, o meu gabinete vai distribuir a carta agora mesmo por todos os órgãos de comunicação social, Muito bem, senhor primeiro-ministro, O governo reunir-se-á às dez horas em ponto, traga os seus secretários de estado, Os subsecretários também, Não, esses deixe-os a guardar a casa, sempre ouvi dizer que muita gente junta não se salva, Sim, senhor primeiro-ministro, Seja pontual, a reunião principiará às dez horas e um minuto, Tenha a certeza de que seremos os primeiros a chegar, senhor primeiro-ministro, Receberá a sua medalha, Que medalha, Era só uma maneira de falar, não faça caso."
As Intermitências da Morte, José Saramago

Em "As Intermitências da Morte", encontras o contexto.
Os políticos terão resolvido os problemas referidos na carta?

Aparece na biblioteca hoje a partir das 14 horas.